Lucas Bambozzi | Em busca do tempo perdido Só o nome de Lucas Bambozzi já dispensaria maiores apresentações entre nós, mas nunca é demais contar que, além de cineasta, videomaker e, mais recentemente, VJ, ele também organiza mostras e produz textos a partir de reflexões sobre a mídia-arte.
O artista vem gravando imagens em vídeo desde o final dos anos 1980. Desde então, coleciona cenas de eventos, acontecimentos, situações íntimas, sempre investigando os limites entre o público e o privado ou, ainda, questionando os limites entre a loucura e os parâmetros de normalidade, enfim, trazendo às telas o universo do bizarro, do caricatural e, por vezes, o insólito, fornecidos pelo território da urbanidade. Assim, Lucas constituiu uma relação de cumplicidade com a câmera que se tornou não somente um prolongamento dele próprio, mas também um instrumento de mediação entre realidades distintas.
Algumas destas imagens (menos de 10%) tornaram-se obras em vídeo; porém, na sua maior parte, ainda permanecem confinadas, sem nunca terem tido o privilégio de encontrar sequer um espectador, quanto mais o de se constituírem em linguagem ou poética.
Como no romance de Proust, Em busca do tempo perdido, Bambozzi resiste e reluta, pois não quer, para si, o sentimento conformista que se apossa do célebre protagonista no final do romance. Para Bambozzi, o final desta obra evoca um certo conformismo revestido de tristeza ou melancolia, talvez a tristeza de ter deixado o tempo passar... assim, é como se - por meio do roteiro a ser esboçado pelo arcabouço de imagens coletadas - o artista pudesse recuperar as emoções e os sentimentos impregnados nesse imaginário armazenado ao longo de anos. É como se Lucas resgatasse, em tempo e com a vida pela frente, fragmentos de si próprio, podendo se rever como um todo. Na verdade, este será um trabalho de seleção e edição que coloca o processo artístico como parte indissociável da sua obra - questionar e revirar processos, dar visibilidade a eles, situar-se melhor diante do que faz. Enfim, um processo de releitura em que o artista vislumbra a possibilidade de ver o seu 'tempo recuperado'. |