Abraham Palatnik | Abraham Palatnik SOBRE ABRAHAM PALATNK
Abraham Palatnik é um dos fundadores da arte cinética no planeta e é também o grande pioneiro das interfaces entre a tecnologia e a arte no Brasil.
Quando retornou ao Brasil, com apenas 20 anos, Abraham Palatnik apresentava-se no meio artístico local com co-nhecimentos de desenhista industrial. O universo do qual se revestiria sua obra é o dos estudos da forma e da psicologia da Gestalt, que aprendeu junto ao crítico Mário Pedrosa, e o território dos princípios construtivistas na arte. Baseado nas leis universais de ciências como a física, a biologia e a matemática, ele acredita na função fundamental da percepção para se compreender e apreciar uma obra de arte. Segundo o artista, a obra não pode transmitir mensagens, ela deve ter vida própria e presença constante. Fiel aos princípios da Bauhaus e da escola de Ulm, Palatnik afirma que a obra de arte não significa 'outra' coisa: seu significado deve estar em si mesma.
Incentivado por Mário Pedrosa, já em 1951 enviou seu primeiro aparelho cinecromático, Azul e roxo em primeiro movimento, à Bienal de São Paulo, onde chegou 'sacudindo' o meio artístico da época. Inicialmente, cortado pelo júri, foi, em seguida, reinserido na mostra.
Na verdade, a vanguarda do 'dinamismo-plástico-cromático' de suas obras, como então definidas por Pedrosa, não encontrava classificações ou denominações, deixando a crítica atônita. Naquela Bienal, o artista ganhou uma menção especial porque sua obra não se inseria nas categorias artísticas daquele momento. O espírito do inventor se antecedeu ao espírito do artista. Apoiado nas mais recentes conquistas tecno-científicas da época, Palatnik almejava trazer para a arte pictórica a possibilidade de luz e movimento, no tempo e no espaço. Prosseguiu investigando formas, projeções de luz, pesquisando o desenvolvimento de motores elétricos, princípios caleidoscópicos. Ao abandonar a pintura e a figuração para tentar pintar diretamente com a luz, constituiu a primeira tentativa, no Brasil, de realizar uma das utopias do projeto moderno da arte: a de Moholy-Nagy, que pro-punha a criação de 'afrescos de luz', a serem projetados sobre paredes ou edifícios inteiros. Para Nagy, as casas do futuro teriam 'um lugar especial para a instalação de afrescos luminosos'. Hoje as casas têm, em sua maioria, lugar especial reservado para aparelhagens de som, televisores, vídeos ou DVDs, e computadores.
Palatnik continuou desenvolvendo seu trabalho e foi, provavelmente, um dos primeiros artistas no mundo a cuja obra a crítica aludiu com um vocabulário realmente contemporâneo, mais próximo aos dos nossos dias, para se referir a uma obra de arte. Em 1964, em artigo de destaque para o jornal Kulturspiegel, de Ulm, o crítico Juergen Morschel assim se referiu à exposição de Palatnik, no Museu de Saint Gallen: 'o visitante dessa exposição encontrou um artista que não executa objetos, mas, sim, encena acontecimentos'. A diferença é que hoje os 'acontecimentos' estão na rede. Já em 1967, Tomás Maldonado, líder do Concretismo na Argentina, então reitor da escola de Ulm, reconheceria o artista como importante precursor da estética da luz e do movimento. Palatnik dedicou-se ainda ao desenvolvimento de jogos e objetos lúdicos que incluíam a participação do espectador. Na obra Mobilidades IV (1959), explorou as possibilidades estéticas de um campo magnético: bolinhas de madeira se movimentavam, silenciosamente, acionadas por eletroímã. Mas, ainda assim, o artista mantinha a participação do espectador dentro de certas regras e permanecia à parte de movimentos como a Body Art ou Arte Povera. Seu cinetismo puro sempre o manteve filiado à tradição construtiva. As investigações de Palatnik não somente fundaram a vertente tecnológica da arte brasileira, mas também se anteciparam às vertentes construtivas que corroboraram o Concretismo (1956) e o Neoconcretismo (1959).
O artista registrou seus estudos de mecânica e desenho industrial em cadernos que contêm desenhos, plantas e diagramas. A invenção está no cerne de sua criação, sempre promovendo o intercâmbio entre arte, ciência, indústria e tecnologia.
Em entrevista ao crítico Frederico de Morais, em 1981, Palatnik reafirmava o ideário da Bauhaus (1919-1933), cuja didática estabelecia relação simbiótica entre indústria e arte: 'Para inventar alguma coisa é preciso possuir um comportamento anticonvencional. Eu acho que as indústrias deveriam convocar artistas plásticos porque eles possuem um potencial perceptivo que pode resolver muitos problemas'.
Para Abraham Palatnik, a tecnologia poderia ser uma forma de ordenar o caos, de reconciliar o homem com sua própria essência e, assim, evoluir.
Segundo o artista:
'A evolução do ser humano está ligada diretamente à adoção da tecnologia e da informação, e sem dúvida faz parte de um projeto.'
'Nos meus trabalhos procuro os princípios que geram informações, ou seja, o princípio da ordem e da essência. As informações no universo estão geralmente ocultas, disfarçadas em meio à desordem.'
'A intuição é, sem dúvida, uma das faculdades mais importantes do homem. A evolução tecnológica dependeria dela, em grande parte, sendo que a inteligência estaria integrada ao processo de intuição.'
'Sem a intuição, enfim, não teríamos artistas que nos proporcionam o contato com o inesperado. É o que chamamos de criatividade.' |