Paulo Nenflidio | Música dos Ventos
Vento é ar em movimento. Quatro cata-ventos foram instalados na área externa de um museu. Uma engenhoca que emite um som de cordas metálico e que lembra um cravo, ou piano, foi instalada dentro do museu. O vento aciona os cata-ventos. A cada volta da hélice é gerado um pulso. A força mecânica dos ventos transforma-se em uma seqüência de pulsos elétricos.
O sinal produzido pelos cata-ventos é transmitido por radiofreqüência. A engenhoca, alocada dentro do museu, tem um receptor de radiofreqüência e recebe o sinal dos cata-ventos. Em seguida, um circuito demultiplexador combina o sinal dos quatro cata-ventos, acionando um dos 15 mecanismos de percussão, que tocam as cordas de acordo com o sinal vindo dos cata-ventos. O som das cordas é amplificado em uma mesa de som, e o resultado sonoro pode ser percebido por meio de um fone de ouvido, havendo assim a participação do público.
A idéia de engenhoca ou gambiarra associa-se imediatamente à invenção de Paulo Nenflidio. A idéia era promover um tipo de criação que anulasse o ato criador realizado pela mão do homem, o artista pensou em produzir uma música autônoma que prescindisse da ação humana. Mas o que é que leva um jovem artista a almejar tal despojamento? Decerto um desejo de transformação; se o artista toca violão, ele mesmo é luthier - que desprendimento o motiva?
“Enquanto o vento acontece e eu o transformo em música, estou conferindo um significado a ele”. A obra requer um lugar específico para acontecer, ao contrário dos DJs e VJs. O significado é a poética do real em lugar escolhido. Não estaria velada, aí, uma crítica ao consumo?
A música em tempo real, em sintonia com o vento, traz à tona uma questão: embora aconteça em tempo real, ela está fora do seu lugar no espaço-tempo. O tempo cronológico é diferente do real (tempo passando) e o vento pode ser entendido como um regulador de tempo. O vento não é ação/reação, mas ação transformada. Vento como temporalidade, o presente. Vento que permanece vento até o fim.
Mesmo que mais ou menos intenso, o vento é o resultado de um fluxo de fenômenos da vida atual. Vento e economia num mesmo fio condutor de pensamento. A obra remete a um tempo monástico. Fora do tempo, um acontecimento em tempo real; a busca de uma estranheza, o resguardo da poética, que vem por via indireta... e, súbito, Nenflidio se dá conta de que tivera um sonho: estava em uma igreja antiga, conseguira subir até a torre do relógio. Lá, encontrou uma caixinha de metal - ela tinha um mecanismo que produzia um movimento, acionando um som linear. Possuía também uma agulha que passava sobre uma placa de cobre com um relevo igual ao dos discos em vinil. E então escutava uma frase, emitida por uma voz que lembrava o tempo, dizendo: “Essa igreja foi construída em 17...”. Nenflidio utiliza-se de meios contemporâneos e trava uma fértil discussão sobre o high e o low tech e a captura do tempo, simultaneamente, a sensação que deseja passar para o espectador é a de um tempo que não é o presente.
Nesta obra, que trabalha com a idéia de exterioridade/interioridade (parte da obra fica alojada em espaço externo, outra parte dentro do museu) podemos lembrar do que Augusto de Campos denominou de “música de invenção”, operada nos anos 1970 por compositores como Walter Smetak ou Tom Zé. Aqui, as artes visuais e a sonorização se fundem para erigir uma poética que orbita ao redor do acaso, do paradoxal e dos deslocamentos da relação espaço/tempo.
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