2004  

Ricardo Ribenboim | Intervenção e Monitoramento Subaquático


Tecnologia (vídeo) e empirismo científico estão presentes nessa nova fase da obra de Ricardo Ribenboim. Suas propostas de monitoramento subaquático configuram um leque aberto de fronteiras: em primeira instância, elaboram a passagem do objeto artístico formal para a condição do informe, criando um diálogo preliminar entre a natureza e o artístico. Depois, tratam de revivificar o objeto, agregando-lhe uma nova vida. O que se pressupunha acabado, fossilizado, agora passa por uma transformação, situando-se num limiar entre a arte e a arqueologia, a arte e a ciência, resultando em uma espécie de ready-made biológico. A mutação e a vida em relação direta com o meio ambiente estão no centro da poética dos monitoramentos subaquáticos de Ribenboim. Na primeira fase do trabalho, o artista depositou diversas esculturas em madeira, alumínio, tecido e concreto no fundo da lagoa da Conceição, em Florianópolis, instalou uma câmara de vídeo que acompanhou o percurso e as transformações desses objetos no tempo - 24 meses submersos em processo de incorporação de outros organismos vivos - e apresentou um aquário na exposição “hiPer>relações eletro//digitais” (Porto Alegre, 2004), Bicho LC2, deslocando, novamente, o objeto do seu contexto.

Agora, o artista quer continuar sua pesquisa aprofundando este processo. A partir da instalação de um novo sistema de monitoramento com horários e datas pré-determinados, Ribenboim pretende mapear a evolução da obra submersa e a fixação de novos elementos da fauna na peça “original”.

Além da construção de um inventário faunísticos e sua conseqüente classificação, o artista leva ao limite a discussão referente ao “lugar comum” da instalação da obra de arte. Promovendo o deslocamento do objeto do lugar no qual seria normal encontrá-lo “ museu, galeria de arte, coleção particular “ para o fundo da lagoa, o artista se insere em uma linhagem de atuações artísticas que se valem da transgressão com a finalidade de agregar novos significados à ação da arte. Nesse horizonte, podemos citar não somente o próprio Duchamp, mas Hélio Oiticica e Artur Barrio, entre outros.

Valorizando muito mais o processo do que o acabamento final da obra, mais uma vez nos deparamos com a idéia do desdobramento, da dilatação da temporalidade, num ato poético que se configura por meio da somatória, da combinação de ações ao longo do tempo. Essas obras, cujo habitat agora é o fundo de uma lagoa, no fundo discutem o destino e o valor dos objetos e contextos, bem como as suas possíveis alterações no tempo. Alterações que não dependem da intervenção humana ou científica “ cirurgias plásticas, conservação museológica, modelação do corpo via exercícios e dietas “ mas que estão simplesmente sujeitas à ação do tempo. Instalar suas obras em Fernando de Noronha e Galápagos será ainda uma outra etapa. “Lá poderá ser o lugar do olhar submerso, o foco de atenção nessas ilhas é totalmente subaquático. É interessante pensar no deslocamento do trabalho para onde estão os olhos, em vez de levar os olhos para onde ficam os trabalhos, como nos museus”, afirma o artista.

>> Imagens

curriculum

Artista plástico, designer gráfico e administrador cultural. Ricardo Ribenboim, estuda com Evandro Carlos Jardim, Baravelli e Fajardo até a década de 90. Investiga os limites entre o design gráfico e as artes visuais, o que se reflete, em seus trabalhos, na utilização de diferentes materiais e suportes, tanto físicos como eletrônicos. Pesquisador do binômio arte/meio ambiente é um dos responsáveis pela manutenção da obra de Frans Krajcberg. Participa em 1974 da Bienal de São Paulo, em 2000 da 7ª Bienal de Havana, em 2000 do Open Air Veneza e em 2001 dos 50 Anos da Bienal Internacional de São Paulo. Realiza diversas intervenções urbanas no Brasil e no exterior, destacando-se o trabalho na Praia de Ipanema na ECO-92, e um conjunto de 4 intervenções no projeto Arte Cidade 3. É responsável pela concepção de uma série de mostras de arte e conselheiro de várias instituições culturais. Entre 1996 e 1997, dirige o Paço das Artes de São Paulo e, em janeiro 1997, assume a direção do Instituto Itaú Cultural até maio de 2002 onde cria o Programa Rumos e consolida a enciclopédia de Artes Visuais desta instituição via Internet. Em seguida funda a Base7 Projetos Culturais. Em 1998, realiza a primeira curadoria internacional de WEB-Art, na 24ª Bienal Internacional de São Paulo. Entre 1999 e 2003 realiza exposições individuais em Berlim, São Paulo, Rio de Janeiro, Miami e New York [P. S. 1 Contemporary Art Center do MoMA e na Martinez Gallery] . Em 2004, Salvador BA, apresenta a instalação na capela do Solar do Unhão, no Museu de Arte Moderna.

ficha técnica

Título: intervenção e monitoramento subaquático
Ano: 2001
O projeto consiste em aplicar em diferentes peças de diferentes materiais, câmeras de observação que ficarão por mais de 6 meses submersas no fundo da Lagoa da Conceição em Florianópolis.
O trabalho será gravado em vários momentos apontando o processo de agregação de uma série de elementos faunísticos. A forma e o processo serão a base para a construção do desenho em computação gráfica de uma plataforma - um complexo de recifes artificiais.

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