Solange Farkas | Hors Concours 5ª edição Solange Farkas é a pioneira no mapeamento da produção de arte eletrônica no Brasil e na sua difusão em âmbito internacional, depois de travar uma batalha que se iniciou há 22 anos no circuito das artes. Enfrentou silenciosamente os percalços e as dificuldades para implantar e difundir a linguagem de vídeo entre nós, resistindo ao desconhecimento e ao descaso, principalmente nos espaços da arte ? museus e galerias ? até presenciar a transformação dessa mentalidade.
À frente do Festival Internacional de Arte Eletrônica Videobrasil, hoje um evento que ocorre a cada dois anos, desenvolveu um trabalho de produção, exibição e difusão, pesquisa, reflexão e formação de acervo na área da videoarte, tornando a Associação Videobrasil uma referência internacional para o vídeo na América Latina.
Nesses 22 anos, o Festival Internacional de Arte Eletrônica enfrentou dificuldades para constituir sua logística e infra-estrutura. Confrontou-se, também, com a necessidade de abrir o projeto, travando contato com outras realidades de arte eletrônica fora do Brasil. Era essencial transformar o Festival em um evento de amplitude internacional, o que implicava mudança de status, logo ao fim da sua primeira década de existência.
Foi nesse momento (1982) que o Videobrasil precisou deslocar-se do Museu da Imagem e do Som (MIS) para o Sesc-Pompéia, onde encontrou acolhida para a continuidade e o crescimento do Festival. A parceria com o Sesc propiciou a conquista de outros parceiros, como, por exemplo, a Prince Claus Fond, da Holanda. Desta forma, foi possível criar uma estrutura básica permanente que permitisse um trabalho sério de pesquisa, bem como de cooperação e parceria com o circuito internacional: centros de mídia, festivais e artistas.
Assim, o Videobrasil deixava de ser um evento isolado para se tornar, aos poucos, uma instituição capaz de abrigar seu acervo e atender a compromissos exigidos pela comunidade internacional. Mas tudo isso ainda não bastava. Entre os anos de 1987 e 1989, o vídeo entrava em crise entre nós: a falta de outras referências e, portanto, de troca de experiências provocava o enfraquecimento das nossas obras, afetando a reação do público e da mídia. Partindo desse diagnóstico, uma das alternativas para ?salvar? o Festival seria abrir sua programação ao circuito internacional, trazendo experiências bem-sucedidas e criando novas possibilidades de intercâmbio entre os artistas nacionais e internacionais. Frente a esta perspectiva, uma outra questão se colocava: como fazer com que esse evento não gerasse um desequilíbrio muito grande entre as obras, levando à exclusão dos trabalhos brasileiros, que, por razões óbvias, eram mais frágeis?
A primeira providência foi a de se dilatar o prazo entre um Festival e o outro, assim os artistas teriam um tempo maior para refletir, produzir e também obter maiores recursos para suas obras. Destas necessidades, nasceu a Mostra Competitiva do Sul que dava visibilidade a outros países da América Latina, também isolada do circuito. Com isso, construía-se uma ponte de circulação de obras a ser percorrida principalmente pelos nossos artistas. Essas mostras traziam pessoas de fora do país que se interessavam em conhecer nossa produção e, eventualmente, em levá-la para seus espaços de exibição.
A exemplo de que acontecia no exterior, Solange Farkas procurou o apoio de emissoras como a TV Cultura e a TV Educativa para que atuassem como co-produtoras e também difusoras da videoarte no Brasil, mas a tentativa foi em vão. Por isto, Solange fez parcerias com centros de mídia internacionais, como o CICV, na França, para que os artistas brasileiros residissem por algum tempo no exterior. Também convidou para o Festival curadores de museus que costumavam exibir, adquirir e organizar acervos ou exposições temporárias de arte eletrônica em seus espaços. A parceria com a Prince Claus Fond foi fundamental para a manutenção do acervo de quase quatro mil obras brasileiras e internacionais do Videobrasil, a recente realização anual de documentários e a organização de curadorias para outras instituições, dentro e fora do Brasil. Prova do sucesso dessa proposta foi a aquisição desses títulos por instituições como o MoMA-NY, o New Museum e o Museu de Arte Moderna de Chicago, entre outros.
Por atuar em todas estas frentes, o Videobrasil constitui importante núcleo de contemporaneidade, deslocando pontos de vista geopolíticos. Hoje, ele é um campo aberto à difusão, à análise, ao intercâmbio, à pesquisa e à experimentação. A vocação de Solange Farkas parece ser a de dar visibilidade ao invisível. Por seu trabalho minucioso, colocando pedra sobre pedra, ela recebe ? em tempo ? o prêmio Hors Concours e a gratidão de toda a coletividade para a qual sua causa ou seu sonho é simplesmente fundamental.
* Informações resumidas do depoimento de Solange Farkas em 3 de dezembro de 2002, no 2º Fórum de Debates do Prêmio Sergio Motta. Vide publicação Mídia Arte: Fomento e Desdobramentos. São Paulo: Instituto Sergio Motta, 2003, p. 33 a 43.
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